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Honduras elege novo presidente em clima de tensão

A candidata opositora do partido esquerdista do partido Liberdade e Refundação Libre , Xiomara Castro, é a favorita entre os mais de 5 milhões de eleitores.

 

Honduras elege neste domingo (28) um novo presidente em um clima de tensão diante de possíveis excessos, dependendo do resultado, em um país afetado pela pobreza e onde o narcotráfico abrange inclusive o atual presidente, Juan Orlando Hernández.

"Desejo fazer um apelo a todas e todos, para que o processo aconteça em paz, tranquilidade, sem medo e sem violência. Chega de violência eleitoral", disse o presidente do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Kelvin Aguirre, no início do dia.

Neste processo, que começou lentamente e com pelo menos meia hora de atraso, mais de 5 milhões de cidadãos podem votar até as 17h no horário local (20h no horário de Brasília). Os resultados serão anunciados três horas depois.

Xiomara Castro, candidata pelo Partido Libre, durante o comício de encerramento de sua campanha eleitoral em San Pedro Sula, em 20 de novembro de 2021 — Foto: Yoseph Amaya/Reuters

A candidata opositora do partido esquerdista do partido Liberdade e Refundação (Libre), Xiomara Castro, é a favorita entre os mais de 5 milhões de eleitores.

Mas o governante Partido Nacional (PN), de direita, cujo candidato é o prefeito de Tegucigalpa, Nasry Asfura, se beneficiou de uma melhor organização e oportunas campanhas do governo de entrega de auxílios a famílias vulneráveis.

Nasry Asfura, candidato à presidência do Partido Nacional, participa de entrevista à TV em Tegucigalpa, Honduras, em 26 de novembro — Foto: Jose Cabezas/Reuters

Os temores de fraude, algo que a oposição já denunciou em 2017, e registros de ao menos 31 mortos como parte da violência política na campanha, alimentam as tensões.

Uma das primeiras pessoas a votar foi Xiomara Castro. "Desejamos que seja uma festa cívica, em paz, em tranquilidade", disse a candidata ao entrar em seu centro de votação. A candidata também pediu a seus eleitores que não caiam em provocações.

"Vão tentar provocar o povo, entendemos que há desespero, especialmente daqueles que estiveram governando nesses 12 anos, mas o povo deve ter confiança", afirmou.

"Se o PN ganhar as eleições, mesmo que legitimamente, haverá um nível de violência preocupante", disse à AFP o analista Raúl Pineda, advogado e ex-legislador do PN.

Há quatro anos, Hernández conseguiu se reeleger em meio a acusações de fraude por parte da oposição e de observadores internacionais. Isso desencadeou uma onda de protestos e repressão estatal que deixou quase 30 mortos.

'Pessoas se preparam para guerra'

"Foi desenvolvida uma espécie de paranoia, as pessoas estão se preparando para a guerra", com cidadãos que nos últimos dias se abasteceram com comida e água devido ao medo de não poderem sair para comprar, disse Pineda.

Mas ele insiste que Washington está prestando muita atenção em Honduras. Não quer que uma nova crise incentive ainda mais as ondas migratórias que constantemente vão da América Central para os Estados Unidos.

Por isso, enviou o chefe de sua diplomacia para a América Latina, Brian Nichols, a uma reunião com os candidatos, enquanto observadores internacionais buscam garantir eleições transparentes.

O momento crucial no qual seria "possível desencadear a violência" chegará três horas após o encerramento, quando está previsto que o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) anuncie os primeiros resultados, disse à AFP Gustavo Irias, diretor executivo do Centro de Estudo para a Democracia.

"Evitar isso dependerá da atitude dos atores políticos, das missões de observação e dos Estados Unidos", considerou.

"Temos medo de perder o emprego por conta das revoltas. Vivemos com o que ganhamos no dia", afirma Luis Andino, que se dedica a administrar os processos de quem solicita carteira de motorista. Quando há protestos, a área onde trabalha é fechada.

Tudo isso em um país já prejudicado pelas ações das gangues, pelo narcotráfico e por furacões, com 59% de seus 10 milhões de habitantes na pobreza.

Pobreza, corrupção e tráfico

Prestes a deixar o poder, o atual presidente, Juan Orlando Hernández, foi citado em um tribunal dos Estados Unidos, onde seu irmão cumpre pena de prisão perpétua por tráfico de drogas, de ser cúmplice desse crime, acusação que rejeita.

Quem o suceder terá que combater a pobreza que atinge mais da metade dos 10 milhões de habitantes e que obriga muitos jovens a migrar irregularmente para os Estados Unidos em busca de trabalho.

O Partido Nacional (PN), no poder desde 2010, espera continuar no comando, agora por meio de Nasry Asfura.

"Depois de uma dezena de anos de governo do Partido Nacional, marcados por corrupção e criminalidade generalizadas, a maioria dos hondurenhos está insatisfeita e parece buscar mudanças", considera Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano.

Asfura não está envolvido com o tráfico de drogas, embora esteja sendo investigado por desvio de verbas públicas.

Sua principal adversária é Xiomara Castro que, se vencer, se tornará a primeira mulher a governar Honduras.

Ela é esposa de Manuel Zelaya, presidente deposto em 2009 por uma guinada à esquerda e por se aliar ao chavismo.

"Mas a máquina do Partido Nacional não deve ser subestimada, e muitos interesses poderosos devem fazer o que puderem para impedir que Xiomara Castro assuma", considera Shifter.

Na conservadora Honduras, o Partido Nacional atacou as propostas de Xiomara Castro relacionadas à legalização do aborto e do casamento homossexual.

Disputam a presidência 13 candidatos, um dos quais foi preso, acusado de tráfico de drogas e homicídios.

Outra candidata é Yani Rosenthal, do Partido Liberal, que passou três anos em uma prisão nos Estados Unidos por lavagem de dinheiro do narcotráfico.

Em 2020, o Congresso dissolveu a Missão da OEA contra a Corrupção e a Impunidade e aprovou um novo Código Penal que reduz as sentenças para casos de corrupção e tráfico de drogas.

EUA pedem voto limpo

Em 2017, uma interpretação polêmica da Constituição permitiu que Hernández se candidatasse à reeleição.

No dia da votação, o sistema de contagem de votos teve problemas mais de 600 vezes num momento em que seu principal adversário, o apresentador Salvador Nasralla, estava à frente com 60% dos votos.

Após as falhas, Hernández venceu por uma margem estreita e os protestos eclodiram.

Nesta semana, Washington enviou o chefe da diplomacia para a América Latina e o Caribe, Brian Nichols, a Honduras para pedir eleições "transparentes e pacíficas".

Os Estados Unidos são o maior parceiro comercial de Honduras.

Se Xiomara Castro vencer por uma pequena margem, "o Partido Nacional alegará fraude e isso pode ser perigoso para a estabilidade do país", aponta o analista Víctor Meza, diretor da ONG Centro de Documentação de Honduras.

E se Asfura ganhar, não importa por quanto, "a oposição derrotada não vai aceitar e vai exigir a recontagem de votos ou novas eleições", acrescenta.

Meza acredita que uma vitória de Castro por larga margem teria mais chances de ser aceita.

 

 

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